terça-feira, 10 de janeiro de 2012

LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS II

Universidade Federal de Santa Catarina
Licenciatura e Bacharelado em Letras-Libras na Modalidade a Distância




Aline Lemos Pizzio
Patrícia Luiza Ferreira Rezende
Ronice Muller de Quadros




Língua Brasileira de Sinais II






                                             


Florianópolis
2009
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS II

Tópicos de lingüística aplicados à Língua de Sinais: Sintaxe

Textos obrigatórios para a análise deste conteúdo:

QUADROS, R. M. de & KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos. ArtMed. Porto Alegre. 2004 – Capítulo 4




Sintaxe é a área de estudo que analisa a combinação das palavras para a formação de estruturas maiores (frases).

            Nesta disciplina serão abordados dois aspectos relacionados à sintaxe de LIBRAS: o uso de marcações não manuais (expressões faciais, movimentos dos olhos,  corpo, entre outros) e a estrutura da frase. Embora esses dois aspectos estejam relacionados, para fins didáticos, eles serão abordados inicialmente em separado. Em alguns momentos, apresenta-se a interface entre a sintaxe, a fonologia, a morfologia e a semântica.


Semântica é a área de estudo do significado na linguagem.

1. Uso de marcações não manuais
            A comunicação humana pode ocorrer de diferentes formas. Nem sempre recorremos à linguagem verbal (seja ela falada ou sinalizada) para nos expressarmos. Esse pode ser o caso quando duas pessoas não falam a mesma língua. Elas vão ter que encontrar outra forma para se comunicar, como apontar para objetos, fazer desenhos, usar gestos para tentar expressar suas idéias. Até mesmo falantes de uma mesma língua, em determinadas situações, podem lançar mão de outros recursos para se fazer entender. Quando um guarda de trânsito faz um determinado movimento com os braços, as pessoas são capazes de compreender se devem parar, se podem prosseguir, se devem retornar, entre outros comandos.
            As expressões faciais também fazem parte da comunicação humana. Através delas, podemos revelar emoções, sentimentos, intenções para nosso interlocutor. Elas são utilizadas em todas as línguas. No caso das línguas de sinais, as expressões faciais desempenham um papel fundamental e devem ser estudadas detalhadamente.
            Podemos separar as expressões faciais em dois grandes grupos: as expressões afetivas e as expressões gramaticais. As primeiras são utilizadas para expressar sentimentos (alegria, tristeza, raiva, angústia, entre outros) e podem ou não ocorrer simultaneamente com um ou mais itens lexicais. Conforme dito anteriormente, não são exclusivas das línguas de sinais. Nas línguas faladas, as pessoas também expressam suas emoções por meio de expressões faciais. Já as expressões gramaticais, estão relacionadas a certas estruturas específicas, tanto no nível da morfologia quando no nível da sintaxe e são obrigatórias nas línguas de sinais em contextos determinados. Em virtude de serem específicas das línguas de sinais, as expressões faciais gramaticais serão analisadas com mais detalhes a seguir.

1.1  Marcações não-manuais: expressões faciais gramaticais
1.1.1 Nível morfológico
            As expressões faciais gramaticais fazem parte do conjunto de marcações não-manuais e acompanham determinadas estruturas, tendo um escopo bem definido. No nível morfológico, algumas marcações não-manuais estão relacionadas ao grau e apresentam escopo sobre o sinal que está sendo produzido. Por exemplo, os adjetivos podem estar associados ao grau de intensidade como ilustrado a seguir:

                
           (a)           BONITINHO      (b)                          (a)            BONITO         (b)

             
             (a)      MAISBONITO    (b)                        (a)        BONITÃO     (b)

                                     
   COITADINHO                              COITADO                          MAISCOITADO

            
   POBREZINHO                POBRE                     MAISPOBRE             PROBREZÃO

            As expressões faciais podem ter função adjetiva, pois podem ser incorporadas ao substantivo independente da produção de um adjetivo. Nesse caso, os substantivos incorporam o grau de tamanho conforme apresentado nos exemplos a seguir:

                            
         CASINHA                                    CASA                                    MANSÃO

                                
        BEBEZINHO                                  BEBÊ                                     BEBEZÃO

                               
        CARRINHO                              CARRO                                    CARRÃO
Veja que a marcação de grau apresenta um padrão de expressões faciais que apresenta uma variação gradual, conforme os exemplos apresentados no quadro a seguir:
Grau de intensidade:
                                              
           Normal                        Mais intenso do que o normal               Muito mais intenso

Grau de tamanho:
        
         (1)                        (2)                      (3)                       (4)                       (5)


(1) Muito menor do que o normal
(2) Menor do que o normal
(3) Normal
(4) Maior do que o normal
(5) Muito maior do que o normal

Vocês podem observar que esses tipos de marcações não manuais são graduais, ou seja, eles não apresentam uma expressão fixa, mas são produzidos com diferentes gradações de intensidade e tamanho. A esses tipos de marcações é muito comum haver modificações de outra ordem na produção dos sinais, isto é, os sinais podem sofrer alguma modificação que é associada à intensidade ou grau. Por exemplo, nos sinais apresentados como exemplos de marcação de intensidade e de grau aparecem modificações na configuração de mão. Vejamos em detalhes o exemplo da gradação de BONITO.
Quando o sinal é produzido para expressar algo com uma intensidade específica análoga ao português à palavra BONITINHO, o sinal pode ser produzido com a configuração de mão 5 com os dedos mais aproximados. Veja o sinal:
                          
            (a)        BONITO      (b)                                          (a)     BONITINHO    (b)

1.1.2 Nível da sintaxe
No nível da sintaxe, as marcações não-manuais são responsáveis por indicar determinados tipos de construções, como sentenças negativas, interrogativas, afirmativas, condicionais, relativas, construções com tópico e com foco. Esses tipos de estruturas serão abordados com maiores detalhes na seção seguinte.
Sentenças negativas – São aquelas em que a sentença está sendo negada. Normalmente, possuem um elemento negativo explícito, como NÃO, NADA, NUNCA. Na língua de sinais, podem estar incorporadas aos sinais ou expressas apenas por meio da marcação não manual.
Sentenças interrogativas – São aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. São perguntas que podem requerer informações relativas aos argumentos por meio de expressões interrogativas: O QUE, COMO, ONDE, QUEM, POR QUE, PARA QUE, QUANDO, QUANTO, etc. Também há interrogativas formuladas simplesmente para obter confirmação ou negação a respeito de alguma coisa, por exemplo, VOCÊ QUER ÁGUA? Se espera ter a resposta positiva ou negativa (SIM ou NÃO).
Sentenças afirmativas – São sentenças que expressam idéias ou ações afirmativas. Por exemplo, EU VOU AO BANCO.
Sentenças condicionais – São sentenças que estabelecem uma condição para realizar outra coisa, por exemplo, SE CHOVER, EU NÃO VOU À FESTA. A condição desta sentença é não chover, para que a pessoa vá a festa.
Sentenças relativas – São aquelas em que há uma inserção dentro da sentença para explicar, para acrescentar informações, para encaixar outra questão relativa ao que está sendo dito. Nessas sentenças, normalmente utiliza-se QUE na língua portuguesa; na língua de sinais há uma quebra na expressão facial para anunciar a sentença relativa que é produzida com a elevação das sobrancelhas. Por exemplo, A MENINA QUE CAIU DA BICICLETA ESTÁ NO HOSPITAL.
Construções com tópico – É uma forma diferente de organizar o discurso. O tópico retoma o assunto sobre o qual se desenvolverá o discurso. Por exemplo, FRUTAS, EU GOSTO DE BANANA. Então, o tópico é FRUTAS, sobre o qual será definida aquela de preferência do falante/sinalizante.
Construções com foco – São aquelas que introduzem no discurso uma informação nova que pode estabelecer contraste, informar algo adicional ou enfatizar alguma coisa. Por exemplo, se alguém diz que a MARIA COMPROU O CARRO e esta informação está equivocada, o falante/sinalizante seguinte pode fazer uma retificação: NÃO, PAULO COMPROU O CARRO. Paulo aqui será o foco.

            Dentre as expressões faciais utilizadas gramaticalmente estão os movimentos de cabeça (tanto afirmativo quanto negativo), a direção do olhar, a elevação das sobrancelhas, a elevação ou o abaixamento da cabeça, o franzir da testa, o piscar dos olhos, além de movimentos com os lábios para indicar negação, para diferenciar os tipos de interrogativas e assim por diante. Ainda não há estudos exaustivos sobre as marcações não manuais na libras, mas estaremos fazendo um levantamento com base em alguns dados e vocês poderão, também, ajudar a delinear algumas marcações recorrentes nessa língua.  Cada uma dessas expressões está associada a uma determinada estrutura sintática e apresenta um escopo bem definido. Em uma mesma sentença é possível ter mais de uma marcação não-manual e a sua ausência pode deixar uma sentença agramatical (como será observado na próxima seção). A seguir são apresentados exemplos do uso gramatical das expressões faciais.
Negação (neg)
            Segundo Arrotéia (2005), existem duas formas de indicar a negação não-manual em LIBRAS. Na primeira forma pode ser realizado o movimento da cabeça para os lados indicando a negação, mas este movimento não é obrigatório na língua de sinais e está ligado a questões discursivas. Na segunda, utilizamos expressões faciais de negação em que há modificação no contorno da boca (abaixamento dos cantos da boca ou arredondamento dos lábios), sempre associada ao abaixamento das sobrancelhas e ao leve abaixamento da cabeça. Diferentemente do movimento de cabeça, as expressões faciais são obrigatórias para marcar a negação, estando relacionadas a questões sintáticas.
                                        

            A autora ainda afirma que o uso do movimento de cabeça para a negação apresenta uma distribuição mais ampla do que as expressões faciais. É possível realizá-lo apenas junto ao marcador ‘não’, junto ao sintagma verbal, junto a toda sentença e ainda pode se estender para além do último sinal realizado, como pode ser visto nas glosas dos exemplos[1] abaixo.
a. IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef
 

b. IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef
 

c. IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef
 

d. IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef                                                                     


            Já as expressões faciais negativas têm uma distribuição mais restrita. Elas não podem acompanhar a sentença toda, nem podem se limitar ao marcador de negação. Elas necessariamente devem co-ocorrer junto a todo o sintagma verbal, conforme ilustrado a seguir.

a. IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef

b. *IX<1> NÃO 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>aef

c. *IX<1> NÃOef 1ENCONTRARa JOÃOa IX<joão>a


O asterisco ‘*’ indica que a sentença é agramatical.

            Os sinais manuais que acompanham as marcações não-manuais acima citadas são os seguintes.
                   
                (a)       NINGUÉM     (b)                        NADA                       NENHUM

Afirmação (afirm): são realizados movimentos para cima e para baixo com a cabeça indicando afirmação. Geralmente, a marcação não-manual de afirmação está relacionada a construções com foco. Veja abaixo as glosas com os exemplos:
 JOÃO VIAJAR <PODER>afirm
JOÃO LIVRO <CONHECER>afim
JOÃO TELEVISÃO <ENTENDER>afim
JOÃO MECÂNICA <SABER>afim

Interrogativas: há 4 diferentes marcações não-manuais para as sentenças interrogativas, dependendo do tipo de pergunta que está sendo feita.
            a) Interrogativa QU (qu): há uma pequena elevação da cabeça, acompanhada do franzir da testa.
Glosas com exemplos desse tipo de interrogativa:
<O QUE JOÃO PAGAR>qu
<QUEM JOÃO CONHECER>qu
<O QUE JOÃO SABER>qu
<QUEM JOÃO NAMORAR>qu
<O QUE JOÃO LER>qu
<O QUE JOÃO ESTUDAR>qu
            b) Interrogativa S/N (sn): há um leve abaixamento da cabeça, acompanhado elevação das sobrancelhas.
Glosas com exemplos desse tipo de interrogativa:
< JOÃO COMPRAR CARRO>sn
<JOÃO GOSTAR VÔLEI>sn
<JOÃO TRABALHAR FÁBRICA>sn
<JOÃO GOSTAR CERVEJA>sn
<JOÃO NAMORAR MARIA>sn
<JOÃO TER FILHOS>sn
            c) Interrogativa que expressa dúvida e desconfiança (pode ser feita com uma ou duas mãos): lábios comprimidos ou em protrusão, olhos mais fechados e testa franzida, leve inclinação dos ombros para um lado ou para trás.
 Glosas com exemplos desse tipo de interrogativa:
[JOÃO BANHEIRO TRANCADO             Q-e]dúvida
                                                          
[IX(ELES) REUNIÃO ESCONDIDO. IX(1) PENSAR  Q-e  ESCONDIDO]dúvida
                                                         
[ESCOLA PROFESSOR ENSINAR LÍNGUA DE SINAIS Q-e]dúvida
            d) QU que aparece em sentenças subordinadas sem a marcação não-manual interrogativa: os sinais para O-QUE e QUEM dentro da sentença são realizados com a marcação não manual da própria sentença, ou seja, será afirmativa ou negativa:
Glosas com exemplos desse tipo de interrogativa:
<EU SEI QUEM ROUBOU>afirmativa
<EU NÃO SEI QUEM ROUBOU>negativa

Direção do olhar (do): direcionar a cabeça e os olhos para uma localização específica simultaneamente com um e/ou mais sinais, para estabelecer a concordância. 
<TVb>do <ELEa>do <aASSISTIRb>do
Glosas com exemplos de direção do olhar:
ELE AJUDAR(ela)
EU ENTREGAR(ele) LIVRO
TU TELEFONAR(para ela)
ELE AVISAR MAMÃE

Elevação das sobrancelhas (top): a elevação das sobrancelhas é a marca associada ao tópico e por isso é representada pelas letras ‘top’.
Glosas com exemplos de elevação das sobrancelhas:
<ANIMAIS>top EU GOSTAR GATO
<PARIS>top EU VOU
<MARIA>top JOÃO GOSTA ELA
<JOÃO>top MÃE CUIDAR
<BRASIL>top NÓS AMAMOS
<CARRO>top ELE GOSTAR AUDI
<LIVRO>top ELA GOSTA ROMANCE
           
As marcações não-manuais também podem ser utilizadas como marcas do discurso, indicando as trocas entre os interlocutores, o fluxo da conversação, conforme o exemplo a seguir:
Diálogo Cenário: Vestibular Letras/Libras
Sinalizante A: Oi tudo bem?
Sinalizante B: Sim, tudo bem.
A: Você sumiu, por quê?
B: Eu estudar para o vestibular Letras/Libras.
A: Ah, bom... Mas porque escolher este curso?
B: Porque eu quero ser professor de Libras.
A: Bom... já acabou inscrição vestibular?
B: Ainda não, acabar amanhã, aproveitar fazer inscrição Internet.
A: Depois você me passar email explicar com detalhes, ok?
B: Pode deixar.
A: Muito obrigado me informar.
B: De nada, bom ajudar.
A: Eu tenho compromisso agora, depois encontrar.
B: Bom te encontrar, depois e-mail.
A: Tchau
B: Tchau
            HOITING, N.; SLOBIN, D. I. (2002), em um trabalho sobre um sistema de transcrição de língua de sinais para estudar a língua de sinais americana, organizam os componentes não-manuais de outra forma, separando-os em quatro tipos:

1. Operadores: têm escopo sobre uma expressão ou oração (negação, interrogação, tópico, oração relativa, condicional, etc).
- Fui loja, mas não comprei nada.
- Só vou viajar, se tiver dinheiro.
- Você passou minha camisa?

2. Modificadores: podem acrescentar uma dimensão para o significado referencial de um item lexical ou uma proposição por meio de uma articulação não-canônica do sinal e/ou pelo acompanhamento de expressões faciais, tanto aumentativas quanto diminutivas de tamanho, proporção ou intensidade.
- Ele estudar muito, ela estudar pouco.
- Mar do nordeste é mais azul do que o do sul.
- Eu ter dinheiro pouco, ele muito.

3. Afetivos: são acompanhamentos dos sinais realizados pelo rosto, boca ou corpo, indicando a postura do sinalizador frente à situação que está sendo comunicada (surpresa, excitamento, angústia, raiva, etc).
- Você casou? Eu não sabia!
- Ele foi assaltado? Coitado!
- Não sei se fui bem vestibular. Estou angustiado!

4. Marcas do discurso: regulam o fluxo da conversação, as trocas entre os interlocutores, verificando se há compreensão, concordância, etc por parte dos mesmos. Esses componentes não-manuais correspondem à entonação e interjeições nas línguas faladas.
- Você fazer vestibular Letras/Libras?
- Sim, é importante futuro professor Libras!
- Certo! Eu também vou fazer. Boa sorte!

            Leite (2008) analisou alguns aspectos da conversação na libras e observou um conjunto de marcadores não manuais. O autor faz o primeiro levantamento de um repertório de recursos manuais e não manuais que constitui uma referência inicial para a segmentação do discurso na libras em termos gramaticais associados à informação prosódica. Há poucas referências à prosódia[2] nos estudos das línguas de sinais, no entanto, muitos pesquisadores de línguas de sinais fazem referência às marcações não manuais como gramaticais. Intuitivamente, vários sinalizantes afirmam tacitamente que essas marcações fazem parte da gramática da língua, no entanto, não há estudos detalhados de como se explicam essas marcas na língua. A prosódia, portanto, se torna um campo de estudos profícuo nas línguas de sinais, podendo contribuir, de forma mais abrangente, para os estudos lingüísticos de modo geral. Veja que no caso das línguas faladas, houve a tendência de separar a língua das marcações gestuais e entoacionais, enquanto que nas línguas de sinais sempre houve dificuldade em descolar uma coisa da outra, evidenciando que a língua incorpora elementos manuais e não manuais de forma intrínseca. A seguir é apresentada a síntese de Leite (2008:256-257) com os marcadores não manuais identificados, considerando o contexto conversacional:

Marcas formais prosódicas de segmentação na libras
Nível
Tipo
Função Prosódica





Manual
Alongamento final
a) manutenção da suspensão pós-golpe
ou da suspensão independente
b) reiteração dos movimentos
repetitivos internos ao golpe
c) transformação de uma fase expressiva formada por suspensão independente em
uma fase expressiva formada por golpe


Marcação de disjunção na
cadeia de fala, delimitando
fronteiras entre UPs e/ou trechos maiores de discurso

Reduções fonético-fonológicas
a) sobreposição da fase expressiva de um sinal com a fase de preparação de outro sinal 
b) elisão de movimentos repetitivos
internos ao golpe
c) retenção bastante breve da suspensão independente nas fases expressivas sem golpe
d) assimilação da configuração de mão
do sinal subseqüente pelo sinal inicial
e) abreviação dos movimentos
repetitivos internos ao golpe



Marcação de junção na
cadeia de fala, fortalecendo
a coesão interna da UP


Gestos atencionais coesos
a) espacialização dos sinais
Delimitação de UPs e/ou
trechos maiores de discurso




Não-manual
Sinais não-manuais
a) piscada de olhos
b) acenos de cabeça
c) retomada do contato visual
Marcação de disjunção na
cadeia de fala, delimitando
fronteiras entre UPs e/ou trechos maiores de discurso

d) espraiamento de imagens bucais
Marcação de junção na
cadeia de fala, fortalecendo
a coesão interna da UP
Gestos atencionais coesos
a) expressões faciais
b) posicionamentos e/ou
movimentos da cabeça
c) orientações e/ou movimentos
do tronco
d) direcionamento e/ou
movimentos do olhar



Delimitação de UPs e/ou
trechos maiores de discurso

Tabela 1. Síntese das marcas formais de salientação da libras no âmbito do discurso, retirada de Leite (2008; p. 256)



Marcas formais prosódicas de acentuação na libras
Nível
Tipo
Função Prosódica

Manual

Modulação das fases do gesto (preparação
mais longa, seguida de suspensão pré-golpe
e golpe mais rápido e longo)


Salientação de um
item informacional
numa UP

Não-manual

Breves deslocamentos do olhar, de
um padrão estável para pontos
discretos no curso de uma UP


Salientação de item informacional
e/ou facilitação da percepção de uma soletração manual
Tabela 2. Síntese das marcas formais de salientação da libras no âmbito das UPs, retirada de Leite (2008; p. 257).
.
2. Estrutura da sentença em LIBRAS


Sentença é um enunciado que se organiza em torno de um verbo.


2.1 Panorama da ordem das palavras
A ordem das palavras é o conceito básico relacionado à estrutura da sentença de uma língua. A idéia de que as línguas podem apresentar diferentes ordens básicas teve um papel significativo na análise lingüística. Por exemplo, Greenberg (1966) observou que das seis combinações possíveis de sujeito (S), de objeto (O) e de verbo (V), determinadas ordens de palavras são muito mais comuns do que outras. As línguas frequentemente permitem diversas ordens, mas Greenberg observou que mesmo que essa variação exista, geralmente cada língua tem uma única ordem de palavras dominante. De acordo com ele, a ordem dominante pode ser SOV, SVO ou VSO. Ele observou que a ordenação dos elementos tende a ser consistente, isto é, uma língua VO terá o objeto após a preposição, enquanto uma língua OV terá a ordem oposta, objeto e então preposição.
Essas generalizações foram formalizadas no desenvolvimento da teoria X-barra (Jackendoff, 1977; Chomsky, 1981). Em termos da teoria X-barra, “o sistema da estrutura da sentença para uma língua particular é amplamente restringido à especificação dos parâmetros que determinam a ordenação núcleo-complemento, núcleo-adjunto, e especificador-núcleo” (Chomsky e Lasnik, publicados primeiramente em 1993, e posteriormente em 1995:53). O núcleo pode ocupar uma posição final, como em línguas tais como o alemão, ou uma posição inicial, como nas línguas tais como o português. Esse é o ‘parâmetro do núcleo’, isto é, línguas são tanto de núcleo inicial como de núcleo final. 
Além do termo ordem ‘básica’ das palavras, os termos ordem ‘canônica’ e ordem ‘subjacente’ das palavras são também usados para descrever a ordem em diferentes línguas. Dos estudos tipológicos aos estudos formais, nós vemos uma distinção entre ordem ‘básica’ ou ‘canônica’ e ordem ‘subjacente’ das palavras. A primeira é relacionada à ordem das palavras de superfície em uma língua. Como mencionado antes, Greenberg observou que algumas ordens de palavra parecem ser dominantes nas línguas do mundo e é, por esta razão, que são chamadas ‘básicas’ ou ‘canônicas’. Em toda a língua particular, a decisão para rotular uma ordem particular como dominante é baseada na ordem de palavras de orações simples não-marcadas.
Por outro lado, a ordem ‘subjacente’ é aquela que é gerada na estrutura profunda da sentença. A ‘estrutura profunda’ é a estrutura nua no sentido de Chomsky (1965), isto é, a estrutura antes que todas as transformações lhe sejam aplicadas. A estrutura profunda não corresponde obrigatoriamente à forma do que é pronunciado (isto é, a estrutura de superfície). Com o desenvolvimento da teoria X-barra (Chomsky, 1981), a estrutura profunda (D-structure) transformou-se em um nível abstrato da sintaxe que relaciona o sistema computacional e o léxico; assim, é uma ‘interface interna’. A variação na ordem das palavras será expressa pelo componente fonológico, em que os elementos na estrutura são pronunciados. Nesse nível do sistema computacional da língua, nós observamos o resultado das transformações em diferentes derivações. Isso nos dá as possíveis ordens de palavras permitidas pela língua. A ordem de palavras ‘subjacente’, nesse sentido, é relacionada ao parâmetro mencionado antes, o parâmetro do núcleo. A(s) ordem(ns) ‘subjacente(s)’ é (são) aquelas a que as operações se aplicarão. Por exemplo, a ordem de palavras ‘subjacente’ de uma sentença topicalizada será uma em que não há nenhuma topicalização. Veja as glosas abaixo com exemplos:

Ordem subjacente em LIBRAS de uma estrutura com tópico
JOÃO COMPROU CARRO
Ordem derivada
<CARRO>top JOÃO COMPROU

A variação na ordem de palavras é tanto o resultado das diferentes derivações que estão sendo permitidas por línguas diferentes, como de diferentes ajustes do parâmetro do núcleo.
A finalidade desta seção é analisar a ordem de palavras subjacente na língua de sinais brasileira como uma parte de sua estrutura da sentença. A variação na ordem de palavras é determinada por operações sintáticas que são motivadas por relações semânticas e fonológicas, isto é, os componentes PF (interface fonológica) e LF (interface semântica).
Nós veremos que a língua brasileira de sinais mostra flexibilidade na ordem das palavras. Conseqüentemente, determinar a ordem básica dessa língua não é assim trivial.

2.2 Ordem das palavras na LIBRAS

Há dois trabalhos que mencionam a flexibilidade da ordem das palavras na LIBRAS: Felipe (1989) e Ferreira-Brito (1995). Elas indicam que essa língua tem possibilidades diferentes para a ordenação das palavras na sentença, mas mesmo com esta flexibilidade, parece existir a ordem básica SVO. Nós apresentaremos sustentação empírica para essa intuição e proporemos uma representação da estrutura da frase para essa língua. A evidência vem de sentenças simples, de sentenças com orações encaixadas, de sentenças com advérbios, com modais e auxiliares. As outras ordens permitidas na LIBRAS resultam da interação de mecanismos gramaticais, tais como, aqueles mencionados para ASL, assim como outros. Não obstante, a ênfase da seção atual estará na ordem básica e na estrutura da sentença na LIBRAS.

2.2.1 SVO como ordem básica

Há sentenças na LIBRAS que podem ter as ordens SVO, OSV, SOV e VOS. Nós apresentamos sentenças com verbos com concordância e sem concordância, porque essa assimetria na concordância que distingue esses verbos na LIBRAS pode ter e, provavelmente, deve ter, comportamento diferente na estrutura sintática.
Glosas de construções SVO
MARIA CONHECER COMPUTADOR
JOÃO xASSISTIRj FUTEBOL
ELA GOSTAR COMIDA MINEIRA
ELE TRABALHAR FÁBRICA
ELA ESTUDAR LETRAS
ELE xENTREGARj LIVRO JÁ
As sentenças SVO são muito naturais em LIBRAS e exemplos que usam esta ordem são considerados sempre gramaticais.
Os exemplos com concordância sinalizada no verbo apresentam o marcador não-manual especial que está associado com o sujeito e o objeto da sentença. Nós vemos o corpo deslocar e o olhar direcionado para o objeto do sujeito. A direção do olhar é marcada na glosa pela linha sobre a sentença. É importante esclarecer que é possível ter outros marcadores não-manuais associados com cada sentença. Por exemplo, o aceno de cabeça pode simultaneamente ser associado com estes exemplos. Entretanto, estes outros marcadores não-manuais não são obrigatórios. Para nossa finalidade, nós estamos considerando somente a direção do olhar e o deslocamento do corpo com verbos não-simples.
Esse marcador não-manual especial que pode combinar a direção do olhar e o deslocamento do corpo foi descrito primeiramente por Bahan (1996) para marcadores não-manuais de concordância na ASL. Ele observou que este marcador não-manual co-ocorre com a sentença inteira quando a concordância é sinalizada, enquanto for opcional com sentenças em que não há concordância sinalizada. É interessante analisar esse marcador não-manual, porque ele parece se comportar similarmente em LIBRAS sendo associado com a assimetria entre verbos com e sem concordância. A concordância juntamente com o marcador não-manual parece ser importante para a ocorrência das mudanças na estrutura básica. Parece ter algo para fazer com a informação no verbo que licencia diferentes derivações.
As sentenças em ASL com concordância realizada têm sido discutidas como exemplos de ordem de palavras flexível desde Fischer (1973). Nós podemos ver que isso é também ilustrado na LIBRAS com os exemplos. A única diferença que aparece é o fato que em sentenças sem concordância marcada, elas podem ser sinalizadas sem o marcador não-manual (direção do olhar e deslocamento do corpo), mesmo que este resulte em uma ligeira degradação de aceitabilidade da sentença. Na LIBRAS, parece que o marcador não-manual traz um traço adicional que licencie mudanças na ordem das palavras. Isso dá, também, sustentação à hipótese que a ordem básica das palavras na LIBRAS é SVO. Quando não há nenhuma informação não-manual adicional na sentença com verbos com concordância, a ordem das palavras é SVO, como mostrado nas glosas abaixo:

IX<a> JOÃOa aASSISTIRb  bTV
<IX<a> JOÃOa aASSISTIRb  bTV>direção do olhar

* TVb IX<a> JOÃOa aASSISTIRb
< TVb> <IX<a>> <JOÃOa aASSISTIRb> direção do olhar

* IX<a> JOÃOa TVb aASSISTIRb
<IX<a> JOÃOa> <TVb aASSISTIRb> direção do olhar

Comparando as sentenças com o marcador não-manual com sentenças sem o marcador não-manual, concluímos que ele é o marcador especial que permite que os constituintes sejam movidos na LIBRAS.
Há também outro marcador não-manual, o aceno de cabeça que pode ser também associado com verbos sem concordância, embora não seja o mesmo como aquele que aparece com verbos com concordância. Há um aceno de cabeça que se espalhe sobre o último elemento de cada exemplo. A mesma análise fornecida antes com as sentenças com marcação manual e sem marcação pode aplicar-se às sentenças com essa marca não manual. O aceno de cabeça é opcional com a sentença SVO, mas é obrigatório nas sentenças em que a ordem é outra. Mais uma vez nós temos mais um argumento a favor da ordem SVO como sendo ordem de palavra subjacente. O aceno de cabeça parece permitir o movimento do objeto; assim, se as sentenças não tiverem este marcador não-manual, elas devem ser agramaticais. Isso é exatamente o que acontece nas glosas com os exemplos a seguir:

Construção SVO
IX<the> JOÃO GOSTAR FUTEBOL

Construção OSV
*FUTEBOL IX<the> JOÃO GOSTAR

Construção SOV
* IX<the> JOÃO FUTEBOL GOSTAR

Os exemplos mostram mais uma parte da evidência para a ordem básica SVO na LIBRAS, já que as sentenças OSV e SOV são consideradas agramaticais, mesmo com o marcador não-manual, enquanto a ordem SVO ainda é gramatical.
Como vimos antes, Fischer (1975) analisou exemplos com sujeito e objeto reversíveis em ASL como agramaticais quando não observavam a ordem SVO. O que acontece é que em JOÃO GOSTAR MARIA, JOÃO e MARIA são reversíveis porque cada um pode ser sujeito ou objeto da sentença, enquanto em JOÃO GOSTAR FUTEBOL, JOÃO e o FUTEBOL não são. Ela observou que se o objeto e o sujeito são não-reversíveis, mudanças na ordem podem ocorrer. Isto parece também acontecer com os exemplos mostrados na LIBRAS. A pergunta que nós levantamos aqui é porque é possível ter argumentos não-reversíveis em sentenças com as ordens SOV e OSV, enquanto isso não é possível com argumentos reversíveis. A análise de Fischer é baseada em restrições semânticas. Pode haver também alguma restrição sintática sendo violada neste tipo de sentença. Se este não for o caso, este tipo de estrutura deve ser pronunciado sem problema, e seria inaceitável apenas devido a não plausabilidade no significado.
As ordens OSV e SOV parecem ser geradas pelo movimento de um ponto de vista sintático. Agramaticalidade da sentença JOÃO MARIA GOSTAR ou MARIA GOSTAR JOÃO parece resultar do fato que GOSTAR é um verbo transitivo e, por razões semânticas, a única interpretação disponível é JOÃO e MARIA como sujeitos da sentença; essas sentenças são excluídas por causa da falta do objeto, JOÃO E MARIA GOSTAM (de quê?). Esse não é o caso com argumentos não-reversíveis em que a interpretação semântica da relação gramatical é plausível. É interessante que, na LIBRAS, as ordens OSV e SOV com argumentos reversíveis em sentenças com verbos simples podem ser pronunciados com um auxiliar. Veja as glosas:

            ___________eg          _________________eg         ___hn
IX<the> JOÃOa        IX<the> MARIAb aAUXb   GOSTAR

  __________eg       ___________eg          _____eg          ___hn
IX<the> MARIAb IX<the> JOÃOa      aAUXb           GOSTAR

O AUXILIAR é um recurso gramatical que não apareça em ASL, mas é possível na LIBRAS nesses contextos. O papel do AUXILIAR nesses exemplos é compensar a falta de concordância. Da mesma maneira que com verbos com concordância, as sentenças precisam ser pronunciadas com o marcador não-manual. 
Considerando a intuição natural dos sinalizantes, nós supomos que outras combinações dos constituintes não são aceitáveis na LIBRAS. As sentenças com o sujeito em posição final (exceto quando há marcação de foco) são supostamente agramaticais, assim como aquelas com ordem VSO, como mostrado nas seguintes glosas:


Construções VOS
      _______________eg       ___________eg
*aOLHARb IX<the> JOÃO      X<the> MARIA
                                          __________hn
*GOSTAR FUTEBOL IX<the> MENINO

Construções OVS
             __________________eg      ___________eg
      * IX<the> JOÃOb aOLHARb   IX<the> aMARIA
                                          __________hn
*FUTEBOL GOSTAR IX<the> MENINO
Construções VSO
            ____eg                        _________eg              _________eg
 *aOLHARb        IX<the> MARIA       IX<the> JOÃO
                                               _________hn
      *GOSTAR IX<the> MENINO FUTEBOL

Até agora, nós vimos que a LIBRAS permite três ordens de palavras possíveis: SVO, SOV e OSV. Contudo, os fatos indicam que as ordens SOV e OSV são derivadas de SVO, assim como em ASL. Conseqüentemente, nós podemos supor SVO como a ordem básica na LIBRAS.
A etapa seguinte é usar os testes principais aplicados a ASL a respeito da ordem de palavras para verificar se as mesmas restrições observadas nessa língua são encontradas também na LIBRAS. Liddell (1980) observou que a única ordem possível com construções sim/não em ASL é SVO.  Na LIBRAS, entretanto, nós encontramos perguntas s/n com ordens SOV e OSV, assim como com SVO (como mostrado nas glosas a seguir).

<IX<the> JOÃO GOSTAR FUTEBOL>yn
<FUTEBOL IX<the> JOÃO GOSTAR>yn
<IX<the> JOÃO FUTEBOL GOSTAR>yn
<* IX<the> JOÃO IX<the> MARIA GOSTAR>yn

Na LIBRAS, é possível ter perguntas de s/n com ordens SVO, SOV e OSV como mostrado nos exemplos. Por um lado, para ASL, a ausência das ordens SOV e OSV com perguntas de s/n é um argumento para a reivindicação que a ordem básica é SVO. Na LIBRAS, por outro lado, esse teste não diz qualquer coisa sobre a ordenação básica, porque as mesmas restrições não se aplicam.
As estruturas complexas com orações encaixadas mostram mais restrições na distribuição dos constituintes. Conseqüentemente, a distribuição possível destas construções é um teste comum para verificar a ordem de palavras em diferentes línguas. Fischer (1973, 1975) verificou que em ASL nós não podemos ter a extração do objeto para uma posição mais alta em uma estrutura complexa como é possível em estruturas simples. Nós vemos que o mesmo é verdadeiro para LIBRAS nas glosas dos seguintes exemplos:

IX<1> PENSAR [IP IX<the> MARIAa aPARTIRloc].
*IX<1> [IP IX<the> MARIAa aPARTIR] PENSAR.
IX<1> QUERER [IP IX<the> MARIA TRABALHAR MELHOR].
 *IX<1> [IP IX<the> MARIA TRABALHAR MELHOR] QUERER.

As sentenças nos mostram que não é possível ter a ordem SOV quando o objeto é uma oração subordinada, ao contrário do que nós vimos em sentenças simples tais como JOÃO [FUTEBOL] <GOSTAR>hn e MARIA [LIVRO] <aDARb>eg/bs assim como visto anteriormente. Os exemplos com estruturas encaixadas ilustram que a ordem SOV tem uma restrição adicional, fornecendo novamente um forte argumento a favor de SVO como a ordem de palavras básicas na LIBRAS.  Entretanto, nós não observamos esta restrição com OSV como mostrado nas glosas a seguir:

IX<1> PENSAR [IP IX<the> MARIAa aPARTIRloc].
[IP IX<the> MARIAa  aPARTIRloc]         IX<1>             PENSAR
IX<1> QUERER [IP IX<the> MARIA TRABALHAR MELHOR]
[IP IX<the> MARIA TRABALHAR MELHOR] IX<1>   QUERER

Essas sentenças não exibem a restrição observada anteriormente. Assim, parece ser possível ter OSV com um objeto oracional. Novamente, esse movimento parece ser licenciado pela presença do marcador não-manual (aceno de cabeça) na posição final.
Até agora, parece que SVO é a ordem subjacente na LIBRAS, e que as ordens OSV e SOV são derivadas de SVO. Em particular, nós vimos que essas ordens resultam das operações sintáticas motivadas por algum traço adicional, como a concordância ou marcadores não-manuais. Nós não discutimos as operações específicas ainda, e nós não explicamos exatamente como cada sentença pode ser diferentemente derivada.  
            No caso das ordens OSV e SOV, é necessário que a sentença apresente alguma coisa a mais, como o uso de concordância e de marcas não-manuais. Caso isso não ocorra, a sentença é considerada agramatical.
OSV
<COMPUTADOR>do JOÃO USAR
GELADEIRA MARIA LIMPAR
CAMA ELA DORMIR
CELULAR ELE USAR
LIVRO MARIA LER
SOV
JOÃO TELEVISÃO ASSISTIR
MARIA CELULAR USAR
VOCÊ LIVRO LER
EU CAMA DORMIR
ELA GELADEIRA LIMPAR
ELE COMPUTADOR TRABALHAR
            Entretanto, existem algumas situações em que, mesmo utilizando a marcação não-manual e a concordância, uma sentença em uma dessas ordens apresentadas acima não é possível. Quando houver uma estrutura complexa na posição de objeto, como uma oração subordinada, a ordem não poderá ser modificada.

EU ACHAR MARIAa <aIR-EMBORAloc>do      (SVO)
* MARIAa <aIR-EMBORA>do ACHAR              (OSV)

            Outro fenômeno sintático que eleva o objeto para a posição pré-verbal é o uso de topicalização. Esse recurso é bastante utilizado na língua de sinais brasileira e é caracterizado pela marcação não-manual de elevação das sobrancelhas, além de uma pequena pausa entre o elemento topicalizado e o restante da sentença. Essa marcação tem como escopo somente o elemento topicalizado, sendo possível a ocorrência de outra marca não-manual na seqüência, de acordo com o tipo de construção que segue. A marcação de tópico em toda a sentença é agramatical.
OSV:
<FUTEBOL>top, <JOÃO GOSTAR>afirm
<FUTEBOL>top, <JOÃO GOSTAR NÃO>neg
<FUTEBOL>top, <JOÃO GOSTAR>sn    
<BOLA FUTEBOL>top, <ONDE JOÃO PEGAR>qu
*<FUTEBOL, JOÃO GOSTAR>top
<TV>top, <MARIA GOSTAR>afirm
<TV>top <MARIA GOSTAR NÃO>neg
<TV>top <MARIA GOSTAR>sn
<NOVELA TV BELISSISIMA>top <QUE HORAS>qu
*<TV MARIA GOSTAR>top

            Além disso, o elemento topicalizado na língua de sinais brasileira está geralmente relacionado a posições argumentais, ou seja, ligado ao sujeito e/ou ao objeto da sentença. Porém, também é possível gerar um tópico sem que este tenha relação com posições argumentais.

<FRANÇAi>top < EU IR ti>afirm                           (OSV)
<TELEVISÃOi>top <ELE ASSISTIR ti>afirm
<EUj>top <FRANÇAi>top tj <IR ti>afirm              (SOV)
<ELE j>top <TELEVISÃO i>top tj <ASSISTIR ti>afirm
<ANIMAIS>top EU GOSTAR GATO                   (OSVO)
<PROGRAMA TV>top ELE GOSTAR FILME

            No caso das construções com foco, é possível derivar mais uma ordem na língua de sinais brasileira, que é a VOS. Esta ocorre em contextos bem específicos, somente nos casos de foco contrastivo.

VOS:
<QUEM COMPRAR CARRO JOÃO OU MARIA>qu
COMPRAR CARRO <JOÃO>afirm

<QUEM ASSISTIR NOVELA ANA OU PATY>qu
ASSISTIR NOVELA <PATY>afirm

Ainda sobre as construções com foco, existem os casos de foco de ênfase em que há duplicação do elemento focalizado e que são chamados de foco duplicado. É possível realizar construções duplas com diferentes classes de palavras, como verbos, advérbios, modais, quantificadores, negação, elemento QU. Veja as glosas abaixo:

EU PODER IR <PODER>afirm     
EU TER DOIS CARRO <DOIS>afirm
EU PERDER LIVRO <PERDER>afirm
<QUEM GOSTAR GATO>qu <QUEM>qu          
EU <NÃO IR>neg <NÃO>neg       
AMANHÃ ELE COMPRAR CARRO <AMANHÃ>afirm

EU CONHECER ELA <CONHECER>afirm
EU QUERO UMA CASA <UMA>afirm
EU LER LIVRO <LER>afirm
QUEM ASSISTIR NOVELA <QUEM>qu
EU NÃO DAR PRESENTE <NÃO>neg
HOJE JOÃO TRABALHAR COMPUTADOR <HOJE>afirm

            Há também o foco de ênfase em que o elemento focalizado aparece somente no final da sentença. Ele é chamado de foco final e possibilita, assim como os outros dois focos apresentados, a variabilidade na ordem das palavras na frase.

EU PODER IR <PODER>afirm     
EU TER DOIS CARRO <DOIS>afirm      
EU PERDER LIVRO <PERDER>afirm
<QUEM GOSTAR GATO>qu <QUEM>qu
EU <NÃO IR>neg <NÃO>neg       
AMANHÃ ELE COMPRAR CARRO <AMANHÃ>afirm

EU CONHECER ELA <CONHECER>afirm
EU QUERO UMA CASA <UMA>afirm
EU LER LIVRO <LER>afirm
QUEM ASSISTIR NOVELA <QUEM>qu
EU NÃO  1DAR2 PRESENTE <NÃO>neg
HOJE JOÃO TRABALHAR COMPUTADOR <HOJE>afirm

As estruturas com verbos que apresentam concordância são bastante flexíveis. É possível omitirmos tanto o sujeito quanto o objeto, derivando uma ordem com os argumentos nulos. A omissão dos argumentos é possível dentro do discurso, em que os referentes podem ser recuperados.
(S)V(O):
1PERGUNTAR2, 2PERGUNTAR1, aPERGUNTAR2, bPERGUNTARa
2AJUDAR1, 1AJUDAR2,  aAJUDARb, bAJUDARa,  1AJUDARb
aENTREGARb, bENTREGARa, 1ENTREGAR2, 2ENTREGAR1

            Com esses verbos, também é possível pronunciar os argumentos da sentença, utilizar a ordem SOV ou omitir o sujeito ou o objeto, conforme apresentado nas glosas a seguir.

SVOdiretoOindireto
EU 1ENTREGARa LIVRO ELA JÁ

SOdiretoV(Oindireto)
EU LIVRO 1ENTREGARa JÁ

(S)VO(Oindireto)
1ENTREGAR LIVRO  JÁ

SV(O)
EU 1ENTREGARa LIVRO  JÁ

            Os verbos com concordância, além de apresentarem essa flexibilidade na ordenação e serem acompanhados obrigatoriamente de marcas não-manuais, se diferem também dos verbos sem concordância em relação à negação. Com os verbos sem concordância, a negação é realizada no final da frase ou antes do verbo quando é inserido o auxiliar. Já os verbos com concordância não co-ocorrem com o auxiliar e o marcador negativo pode realizar-se antes e após o verbo.
Glosas de verbos sem concordância com AUX
JOÃOa MARIAb aAUXb DESEJAR
JOÃOa MARIAb aAUXb NÃO DESEJAR
JOÃOa MARIAb aAUXb DESEJAR NÃO
Glosas de verbos com concordância
*JOÃOa MARIAb aAUXb aENTREGARb (mostrar exemplo errado)
JOÃOa MARIAb NÃO aENTREGARb
JOÃOa MARIAb aENTREGARb NÃO
           
Quanto ao elemento interrogativo, é possível encontrá-lo na posição inicial da sentença ou na posição final, conforme as glosas dos exemplos abaixo:
<QUEM GOSTAR MARIA>qu
<JOÃO GOSTAR QUEM>qu
            Além disso, de acordo com QUADROS e KARNOPP (2004) existem quatro marcas não-manuais diferentes para sentenças interrogativas:

a) QU 1: é aquela que indaga sobre alguma coisa, normalmente é associada aos elementos qu (QUEM, QUE, QUANDO, POR QUE, ONDE);
<QUEM GOSTAR MARIA>qu
O QUE MARIA GOSTAR TV
QUANDO ELE IR EUROPA
POR QUE ELE NÃO TRABALHAR
ONDE ELE COMPRAR CARRO

b) QU 2 : é aquela que expressa dúvida, desconfiança (pode ser feita com uma ou duas mãos).
EU CURIOSO OS-DOIS CONVERSAR O-QUE
EU SABER GRUPO COMBINAR O-QUE+loc
FOFOCALHADA(telegrama+loc) O-QUE+loc

c) QU 3: é aquela que aparece em orações subordinadas com expressão facial diferenciada;
EU SEI QUEM ROUBOU
EU SEI O-QUE ESCONDIDO
EU SEI O-QUE DENTRO-CABEÇA-DELE

d) QU 4: é aquela que pede uma resposta sim/não.
<VOCÊ QUER BOLO>s/n
<ELE QUER ESTUDAR>sn
<MARIA QUER DORMIR>sn
<JOÃO QUER NAMORAR>sn
Como pode se perceber, cada uma das marcações não-manuais apresenta uma expressão facial específica que é sempre associada ao tipo de estrutura produzida. Assim, na língua de sinais brasileira, as marcações não-manuais desempenham um papel fundamental na seleção das estruturas que serão produzidas e na derivação de estruturas a partir da ordem básica SVO.
Até esse ponto, nós vimos os seguintes fatos para supor que a ordem SVO é a ordem subjacente em LIBRAS:
(i) todas as sentenças SVO são gramaticais sem nenhuma informação adicional; 
(ii) as ordens OSV e SOV estão permitidas somente quando há alguma característica especial (ou traço), como a concordância e os marcadores não-manuais;
(iii) não há dúvida sobre a interpretação de sentenças SVO com argumentos reversíveis, como com ordens OSV e SOV; entretanto, as sentenças que contêm tais argumentos reversíveis são consideradas agramaticais com verbos transitivos porque ambos os argumentos são interpretados como sujeito, e o objeto é eliminado. Este não é o caso com verbos transitivos opcionais, já que as sentenças com argumentos reversíveis são ambíguas;
(iv) outras combinações tais como VSO e OVS parecem não serem possíveis na LIBRAS, mesmo na presença de um marcador especial.
A seguinte tabela sumariza nossas descobertas:

Tabela 3  Distribuição da ordem das palavras
Ordem das palavras
Sim
Não
Com restrição
SVO
X


OSV


X
SOV


X
VOS


X
OVS

X

VSO

X

Baseado nesses fatos, a ordem básica na LIBRAS é SVO. Tendo determinado a ordem básica nessa língua, as demais ordens, ou seja, OSV, SOV e VOS são derivadas da SVO A variabilidade observada na língua de sinais brasileira está ligada a mecanismos gramaticais como a presença de concordância, de topicalização, de construções com foco, sempre associados ao uso de marcação não-manual específica. Assim, uma sentença nas ordens OSV, SOV e VOS só vai ser considerada gramatical se houver o uso de elementos não-manuais associados a ela. Já uma sentença na ordem básica SVO, pode ou não conter uma marcação não-manual e, mesmo assim, será sempre considerada gramatical.

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[1] Como estamos tratando de dois tipos diferentes de marcação não-manual de negação, elas serão representadas por uma linha horizontal acima e abaixo da sentença. A marcação de movimento de cabeça será representada pelas letras ‘mc’ e a marcação de expressão facial, pelas letras ‘ef’.
[2] Prosódia (originário do grego προσωδία) é o estudo do ritmo, entonação e demais atributos correlatos na fala. Ela descreve todas as propriedades acústicas da fala que não podem ser preditas pela transcrição ortográfica (ou similar). Entonação é a variação da altura utilizada na fala que incide sobre uma palavra ou oração, e não de fonemas ou sílabas. Entonação e ênfase são elementos da prosódia, elemento da Lingüística. As funções lingüísticas da entonação são exercidas em instâncias superiores às dos fonemas e palavras, sendo considerada, portanto, um componente lingüístico suprasegmental. Muitas línguas usam a entonação sintaticamente, por exemplo, para expressar surpresa ou ironia, e, mais comumente, para distinguir uma declaração de uma interrogação; o português e o inglês pertencem a este grupo. (Definições disponíveis em http://pt.wikipedia.org/wiki/Prosódia e http://pt.wikipedia.org/wiki/Entonação , consultadas em 15/08/2008). No caso das línguas de sinais, a prosódia é marcada por marcações não manuais. Por exemplo, a entonação pode ser marcada por meio de expressões faciais, se eu quiser ser irônico em sinais, eu posso usar uma expressão facial indicando ironia. Leite identificou algumas marcações prosódicas na libras, coforme sintetizado no seu quadro. Veja exemplos no AVEA.

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